Entre o CLT e a arte de quebrada: arte, comunicação e criação de espaços como prática de existência.

A entrevista que você vai ler faz parte da edição “A Histeria Sagrada” do The Ugly Code, um artefato dedicado a investigar ideias, cultura e estratégia fora das fórmulas habituais. Nessa edição reunimos mulheres que atuam em diferentes campos para pensar o feminino a partir de suas práticas, trajetórias e visões de mundo. O conteúdo completo da revista é distribuído semestralmente, de forma exclusiva, para os membros do Clube de Estratégia. Esta publicação funciona como uma pequena janela para essa curadoria. Aproveite!


Entrevista com Rosa Luz por Diessica M. Luiz

Rosa Luz é artista visual, rapper, comunicadora e publicitária. Mulher trans, negra e periférica, desenvolve uma pesquisa multimídia que articula fotografia, vídeo, performance e música a partir da própria experiência de corpo, linguagem e território.

Formada em Teoria, Crítica e História da Arte pela Universidade de Brasília, já apresentou trabalhos em instituições como MAM São Paulo, MASP, Paço das Artes, Bienal de Curitiba e SP-Arte. No campo da comunicação, atua como criadora de conteúdo na Droga5 São Paulo, desenvolvendo projetos para as redes do Spotify Brasil e colaborando em campanhas como o Pride da Absolut Brasil e a estreia de Vale Tudo, da TV Globo.

É também idealizadora do Pantanal Favela Stúdio, galeria e hub de inteligência territorial no extremo leste de São Paulo, voltado à produção e circulação de artistas periféricos.

Conversamos em janeiro de 2026, em um dia chuvoso. Com uma calma revolucionária, Rosa tomava água em uma caneca ilustrada com sua foto-performance “E Se a Arte Fosse Travesti?” e falava de criação como prática cotidiana, da negociação constante entre arte e trabalho e da decisão de construir espaços próprios quando eles não existem.



Você cursou Teoria, Crítica e História da Arte na UnB. Em que momento esse interesse teórico começou a virar prática e quais referências foram importantes no início da sua trajetória?

RL: Então, foi logo no começo. Quando era caloura, eu acreditava que não tinha talento, por isso escolhi um curso teórico, mas já no primeiro semestre fui desconstruindo essa ideia do que é talento, ainda mais quando a gente está falando de arte, que é tudo muito subjetivo.

Teve uma professora da UnB que foi muito importante nesse processo, a Ruth Souza. Acho que ela enxergou meu potencial, antes mesmo de eu perceber. Lembro disso com muito carinho. Hoje em dia a gente se tornou amiga.

No começo eu tinha muita referência de artistas visuais que trabalham com autorretrato, tipo a Cindy Sherman. Isso foi fundamental pra mim, porque foi uma época em que estava questionando a minha identidade também.

A arte virou uma ferramenta que encontrei para entender quem eu era enquanto pessoa, então o autorretrato foi essencial no processo de me encontrar enquanto uma pessoa trans.

Tinha muitas referências de pensadoras também, como a Angela Davis, que foi muito importante nesse processo. Eu vim de uma onda de militância bem forte, com posicionamento político bem marcado, então essas são algumas das referências que ajudaram a me formar.

Ato II: O transbordamento – Rosa Luz [2026]
Ao revisitar obras de uma década atrás, a artista faz o vermelho transbordar das molduras e ocupar o espaço como gesto de recusa ao silenciamento estrutural e afirmação das existências trans. | Reprodução: Pantanal Favela Studio.


Os seus primeiros trabalhos com autorretrato surgiram ali bem na faculdade e, muitas vezes, eram desenvolvidos com poucos recursos. O que esse ambiente de experimentação te ensinou sobre criatividade?

RL: Era um desafio, no início queria fazer pintura, mas eu só tinha um celular, dez reais e um sonho. Acho que fui naturalmente indo para o autorretrato por causa disso. A fotografia do celular era o que tinha ali e fazia sentido naquele momento.

Desde o começo tive que subverter a técnica e pensar a arte para além do equipamento e assim, aprendi que independentemente do que tiver em mãos, é possível produzir arte. O mais importante é o que você tem a dizer, como usa o que tem para criar e fazer as pessoas refletirem.


Sua expressão artística passa por várias linguagens, da fotografia à performance, como se fossem uma extensão do corpo. Como essas linguagens se articulam no seu processo criativo?

RL: Acho que cada linguagem tem a ver com o que quero comunicar, tem coisas que pedem fotografia, outras pedem música, outras pedem vídeo e assim por diante.

Hoje tenho pesquisado muito sobre essas fronteiras entre arte sonora e artes visuais. Quando participei da exposição “Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira”, com vídeo/clipe “Rosa Maria Codinome Rosa Luz”, por exemplo, foi muito especial estar dentro de uma galeria como o CCBB [Centro Cultural Banco do Brasil], com uma obra musical no meio de outros artistas visuais. Eram mais de 60 artistas negros, de diferentes regiões, nos últimos dois séculos no Brasil.

A relação entre corpo e arte veio muito junto com o autorretrato e o processo de autoconhecimento atrelado a isso foi meu primeiro passo para a performance. Fui entendendo que o meu corpo, por si só, já é político. Sendo uma pessoa trans, negra, periférica, dentro de um ambiente de artes visuais, isso já diz muita coisa.

Na época em que entrei na universidade, em 2013, não tinham muitas referências de mulheres como eu. Tive que brigar muitas vezes para respeitarem meu nome social, e hoje, isso já é o mínimo.

As pessoas já estão mais acostumadas, algumas universidades têm cotas para quem é trans, mas muitas tiveram que passar por isso antes, por algumas violências da transfobia institucional, para que hoje a nossa comunidade possa ter um pouco mais de espaço na sociedade e também na vida acadêmica.

Então foi algo mais forte que eu, usar o meu corpo como linguagem e pensar política por meio da arte. A arte é esse lugar onde podemos debater sobre diversos assuntos e foi através dela que consegui dialogar com a sociedade e com as pessoas que moravam na quebrada que eu nasci.

O rap entra muito nisso também, porque às vezes a pessoa não quer te ouvir num debate, mas uma música, uma pintura ou uma fotografia acessam outro lugar, mais subjetivo. Mesmo que ela não viva as coisas que eu vivo, vai conseguir se conectar comigo de alguma forma.


O que mudou quando o seu trabalho passou a circular em museus, bienais e instituições que historicamente operam com repertórios mais restritos? Além de necessária, como você enxerga a presença do seu olhar nesses espaços?

RL: Diversidade e inclusão geram pertencimento. Isso é algo que as instituições começaram a perceber mais recentemente, inclusive como posicionamento. Além da questão do capital, claro, porque representatividade gera dinheiro.

Mas também tem uma mudança geracional. Quem cresceu com internet tem outra visão sobre diversidade e inclusão, e a tecnologia ajudou a abrir esses espaços para corpos dissidentes ocuparem novos espaços.

No meu trabalho chamado “Se a arte fosse travesti” questiono justamente qual é o lugar das pessoas trans no mundo da arte. Quando olhamos a história da arte, a maioria dos corpos que aparecem ali são de homens brancos ou parte do olhar deles. Ainda é um ambiente muito machista e patriarcal. Nós, mulheres trans e cis, ainda temos muito caminho para trilhar.

Para além da representatividade, sou muito defensora da proporcionalidade. Não é só ter uma pessoa ali, é pensar a pluralidade de vivências de forma real.

Em 2025, por exemplo, passei a fazer parte do acervo do Museu Nacional de Brasília. Lá já tinha outra pessoa trans, a Élle de Bernardini, o que torna tudo muito mais especial. Eu passava por aquele lugar na época da faculdade sonhando em fazer parte disso, e hoje, dez anos depois, estou integrando esse acervo ao lado de outra artista que também é bem foda.

Mulher trans eliminada ou O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo! – Rosa Luz [2015]
Reprodução: Revistazum


Hoje você concilia a arte e o seu trabalho como publicitária. O que mudou no seu processo quando a criação passou a acontecer dentro do mercado?

RL: Mudou muita coisa. Antes eu era minha própria cliente, se queria falar alguma coisa, ia lá e fazia. No mercado eu aprendi a lidar com muitos “nãos”.

Ao mesmo tempo, aprendi a experimentar a criatividade a partir do olhar de marca. Por exemplo, estou lá criando para o Spotify Brasil já tem alguns anos e entender como as decisões são tomadas me fez crescer muito, e também tem contradições, como criar para uma plataforma de música, ocupando o lugar de quem executa, não de quem é artista.

Outra coisa importante para falar é sobre a importância desse movimento de “hackear” esses espaços tradicionais para conseguir sobreviver. Durante muito tempo eu queria viver da minha arte e houve um momento em que fiquei meio refém da criação de conteúdo. No começo era algo prazeroso, depois virou uma obrigação, como se tivesse que produzir sempre mais para ser vista.

Hoje já estou em outro lugar. O trabalho CLT como publicitária me permitiu, enquanto artista, não precisar mais me validar o tempo todo. Antes estava sempre pensando em como pagar o aluguel no mês seguinte, e isso acabava moldando algumas práticas artísticas para que elas fossem aceitas e vendáveis.

Esse trabalho também foi o que me permitiu permanecer em São Paulo e sair de uma situação de vulnerabilidade, logo depois da pandemia.

Quando olhamos para os dados de pessoas trans no Brasil, a maioria de nós está na prostituição. Então eu estar nesse outro lugar, atendendo grandes marcas, sendo quem eu sou, também é uma conquista. E se consigo permanecer nesse mercado que ainda tem tantos desafios, quando o assunto é diversidade, é porque entrego excelência no que faço.

E também uso tudo que eu aprendo para avançar nos meus próprios projetos [risos].


Em dezembro do ano passado, você inaugurou o Pantanal Favela Studio. Como esse projeto surgiu dentro da sua trajetória?

RL: O Pantanal Favela Studio nasceu de vários “nãos” que eu recebi dentro do mercado de arte. Chegou um momento em que pensei “se esse espaço não existe para mim, vou criar”.

É uma galeria, mas também um centro cultural, um hub de inteligência territorial. Um espaço para afirmar que a periferia produz conhecimento, estética e linguagem de qualidade.

A gente está localizado no extremo leste de São Paulo, na União de Vila Nova, um bairro que as pessoas chamam de Pantanal porque nos anos noventa, as pessoas começaram a ocupar e, como fica bem próximo do Rio Tietê, quando chove, alaga, por isso tem essa coisa do pantanal. É um território com muitas dificuldades estruturais e muita produção cultural.

Enquanto artista e gestora, agora de uma galeria, estou muito interessada nesse lugar de pensar Arte de Quebrada como um movimento artístico.

Se a arte contemporânea pode ser tudo, ela também pode ser outra coisa.

Então estou defendendo muito esse termo e focando na divulgação de artistas periféricos do Brasil todo para criar uma ponte entre a periferia e o mercado de arte, não só ficar fechado em um nicho, mas colocar essa produção em circulação no mercado global.

A primeira exposição disponível no Pantanal Favela Studio é a “Sangue nos Olhos“, que é meu projeto particular, onde transformei algumas fotografias que fiz há dez anos em fotopinturas. Estamos também com o edital aberto para a nossa primeira exposição coletiva, que tem previsão de abertura no dia 1º de março.

Estou muito animada com essa nova etapa e para quem quiser conhecer, as visitas podem ser agendadas por email, ou é só mandar uma DM no Instagram. O site também já está disponível: www.pantanalfavelastudio.art. Está todo mundo convidado.


Quando pensa nos próximos anos, que tipo de presença você quer ver no mercado e na cultura?

RL: Gostaria de ver pessoas mais diversas ocupando lugares de poder, não só na base. Hoje existe um esforço de colocar pessoas LGBTQIA+, pessoas trans, em várias áreas do mercado, mas ainda é um desafio retê-las e colocá-las em cargos de liderança. Ainda tem muito caminho para mudar esse cenário.


E olhando para o seu próprio caminho, o que você quer desenvolver daqui para frente?

RL: No momento estou estudando Art Business e também Design Musical, para continuar aprofundando essa pesquisa entre artes visuais e música.

Na música, quero continuar produzindo. Tenho vontade de lançar um álbum chamado Publicity Trapper, falando desse rolê de trabalhar com publicidade, dessa ostentação do CLT e questionando por que alguns corpos conseguem viver da arte e outros não. Também quero experimentar outras sonoridades, como o funk.

E, claro, seguir desenvolvendo o Pantanal Favela Studio e ampliando esse trabalho com artistas periféricos.


ECOS SUBVERSIVOS

Ideias e aleatoriedades que não couberam na entrevista [mas você precisa descobrir]

O que você costuma ouvir quando está criando?

RL: Música brasileira em todas as vertentes. Do forró ao trap, do funk à música de terreiro. Sou bem eclética, mas sou muito nacionalista nesse sentido [risos]. Às vezes trabalhando pro Spotify, tem muitas divas da gringa que não faço a mínima ideia de quem são, passaria reto se encontrasse por aí.


Tem alguma artista ou criadora que você indica sempre?

RL: Tem várias.

Da gringa gosto muito da Issa Rae [Insecure] e da Michaela Coel [Chewing Gum e I May Destroy You]. Gosto dessas artistas porque elas estão nesse lugar híbrido de, às vezes, estar na frente das câmeras e atrás delas também.

E nacional, uma artista que sempre indico é a Jussara Marçal. Ela é vocalista do Metá Metá e tem um trabalho autoral muito interessante, sonoramente falando.

Um lugar onde você se sente em casa.

RL: União de Vila Nova, aqui na Zona Leste de São Paulo. Foi onde eu me encontrei nessa cidade. Apesar de São Paulo ser bem caótica, com vários desafios sociais, políticos, de inserção, de permanência, ao mesmo tempo, é o lugar que me acolheu.

Na cidade onde nasci, eu era basicamente a única pessoa trans ali do bairro, tatuada, etc. Aqui sinto que posso só existir sem ter que ficar me sentindo o centro dos holofotes.

É o lugar que eu me sinto em casa, mais do que onde nasci. A União de Vila Nova também é um bairro muito nordestino, o que me lembra muito onde eu morava, pois meus avós são nordestinos e construíram Brasília. É uma energia bem parecida e aqui tenho uma rede de afetos, formada por pessoas acostumadas a lidar com essa diversidade.


Algo que te inspira fora do trabalho.

RL: A comunidade do pole dance.

Tem muita liberdade de corpo, de movimento, de expressão. Me inspira muito porque é um esporte e uma prática artística ao mesmo tempo. Pratiquei por muitos anos e apesar de ainda carregar um estigma, só quem pratica entende todas as nuances ali e a importância que aquilo tem para muitas pessoas. Já vi muitas mulheres se sentindo mais conectadas com o seu corpo, saindo de relacionamentos abusivos e construindo autoestima para além desse padrão de sensualidade [apesar que eu amo a sensualidade também, haha].


Um hábito que faz parte da sua rotina criativa.

RL: Escrever. É algo que faz parte do meu processo como um todo, a palavra é algo que conecta várias das linguagens que utilizo na arte. E a própria palavra falada também, algo que, para mim, é muito importante.


Algo sem o qual você não vive.

RL: Arte. É onde eu consigo me expressar, me entender e existir no mundo.