Ocupar o visível: A arte como ferramenta de conversa, conflito e construção de mundos.

A entrevista que você vai ler faz parte da edição “A Histeria Sagrada” do The Ugly Code, um artefato dedicado a investigar ideias, cultura e estratégia fora das fórmulas habituais. Nessa edição reunimos mulheres que atuam em diferentes campos para pensar o feminino a partir de suas práticas, trajetórias e visões de mundo. O conteúdo completo da revista é distribuído semestralmente, de forma exclusiva, para os membros do Clube de Estratégia. Esta publicação funciona como uma pequena janela para essa curadoria. Aproveite!


Entrevista com Pri Barbosa por Diessica M. Luiz

Pri Barbosa é artista visual, muralista e ilustradora, com graduação em Artes Visuais [Belas Artes de São Paulo] e extensões em Masculinidades Contemporâneas, em Feminismo Pós-colonial na América Latina e em O Estado e o Corpo [PUC-SP].

Nascida e criada na Zona Leste de São Paulo, já levou seu trabalho para diferentes cidades do Brasil e do exterior, ocupando espaços públicos, projetos com grandes marcas e instituições culturais, como o STRAAT Museum, em Amsterdã, um dos principais museus de arte urbana do mundo.

Sua produção já esteve em exposições no Brasil, Líbano, Estados Unidos, Nova Zelândia e Holanda, além de festivais nacionais e internacionais de arte urbana em países como França, Equador, Colômbia, Espanha e Bósnia-Herzegovina. Entre seus projetos com grandes marcas estão Sony, Uber, Netflix e Asics.

Em seus murais, Pri constrói narrativas que se entrelaçam com os lugares e com as pessoas, partindo da escuta, da oralidade e das histórias de quem vive naquele território. Sua produção se concentra na representação do feminino em suas múltiplas formas de existir, explorando corpo, vivência e identidade a partir de uma linguagem que combina delicadeza estética e força simbólica.

Nossa conversa aconteceu em uma manhã meio caótica, por videochamada. Sentada em frente a uma parede com algumas de suas obras, Pri falava com tranquilidade e muita clareza sobre trabalho, processo criativo e mercado, alternando momentos de análise direta com comentários bem-humorados sobre o cotidiano de quem tenta conciliar criação, vida real e a construção de um legado que vem das relações que constrói e das histórias que encontra quando decide parar, ouvir e olhar ao redor.



Seu trabalho parte de uma linguagem política e constrói imagens que carregam posicionamento, memória e vivência. Em que momento você entendeu que sua prática artística também é uma forma de criar narrativas e promover diálogos?

PB: Acho que desde o início. A política sempre fez parte da minha vida tanto quanto a arte, então essas duas coisas foram crescendo juntas. Desde a adolescência estou envolvida com movimentos populares, de comunidade e movimentos juvenis.

Os momentos de amadurecimento político e de construção da minha visão de mundo aconteceram ao mesmo tempo em que a minha carreira ia se desenvolvendo. Não teve como dissociar uma coisa da outra.

Durante muitos anos trabalhei em estúdios de design e ilustração e esse período foi muito complexo, porque não existia espaço para que eu tivesse uma voz nos trabalhos que realizava. Eu executava, mas não me colocava.

Foi aí que surgiu a necessidade de ter uma produção autoral em paralelo. Era nesse espaço que conseguia falar o que queria e aprofundar coisas que estava explorando na minha vida pessoal.

Pintar mulheres passou a ser uma maneira de falar sobre as coisas que eu estava vivendo, pensando e observando. Para mim, nunca foi só produzir imagem. Sempre foi uma forma de me posicionar e de criar diálogo a partir das narrativas que a gente vê sendo construídas sobre os corpos e as vidas das mulheres.


Quem acompanha seu trabalho percebe uma linguagem muito própria na paleta de cores, formas e nas narrativas que você constrói. Como esse estilo foi se formando ao longo da sua trajetória?

PB: É muito doido, porque quando comparo trabalhos de dez anos atrás com os de hoje, eles são completamente diferentes. Mas quem acompanha a minha trajetória percebe essa transição de forma muito natural, porque ela não acontece como uma ruptura.

O trabalho foi se modificando, evoluindo aos poucos, e existe uma continuidade visual que faz as pessoas o reconhecerem como sendo meu, mesmo com todas as transformações.

Ao mesmo tempo, vejo muita diferença, inclusive nos discursos que expresso. Acho que tem um amadurecimento que vem com a idade, com as experiências e com o que você passa a observar no mundo.

No começo, meu público era formado por mulheres de idade próxima à minha, passando por processos parecidos com os meus, então era um público mais restrito. Com o tempo, fui me preocupando mais em alcançar pessoas de diferentes faixas etárias, em criar imagens que dialoguem com mais gente, sem perder a minha visão de mundo.

Señora de Flórez [Medellín, Colômbia • 2025] Mural criado para o Medellín Street Art Festival, retratando Dona Santa Ligia, da Placita de Flórez. Uma homenagem às mulheres trabalhadoras que preservam saberes sobre ervas, plantas e flores. Reprodução: Pri Barbosa


Porque, quando falamos de política, muitas vezes acabamos nos comunicando só com quem pensa igual e tem o mesmo perfil de gênero, de idade e de raça que a gente. Isso me incomoda. Aos poucos fui buscando outras formas de construir diálogo com pessoas diferentes, partindo da minha perspectiva, mas abrindo espaço para outras leituras e esse movimento de olhar para o que é igual, mas também para o que é diferente, foi enriquecendo cada vez mais o meu trabalho.


A relação entre comunidade, moradia e pertencimento aparece bastante nas suas obras. De que forma esse território aparece no seu trabalho e no jeito como você se posiciona no mundo?

PB: A forma como circulamos pela cidade e os lugares que habitamos oferecem acessos diferentes. É inegável que a qualidade de vida que tenho hoje, morando mais perto do centro, é diferente da que eu tinha quando estava mais distante. Ao mesmo tempo, não consigo me imaginar vivendo em outro local.

Nasci no Aricanduva e sempre vivi naquela região, entre Vila Matilde, Artur Alvim e hoje moro na Mooca. Minha família continua morando mais na periferia e lá é onde estão as minhas referências, as minhas memórias, as pessoas com quem cresci. Então, mesmo com as mudanças de endereço, esse território continua sendo um lugar de pertencimento muito forte para mim.

E isso aparece no meu trabalho na forma como observo a cidade, nas histórias que me interessam, nos corpos que retrato e nas relações que consigo construir quando estou pintando em algum lugar. A Zona Leste não é só de onde eu vim, é uma base que organiza o jeito como olho e me relaciono com o mundo.


Quando você olha para as imagens de mulheres que circulam hoje na arte, na publicidade e nas redes, o que ainda sente falta de ver representado?

PB: Falta muita coisa. E acho que essas representações só vão ser realmente diversas quando a gente tiver essas mulheres diversas podendo falar por si mesmas. Não adianta construir uma imagem dessas mulheres sem que elas façam parte do diálogo.

Hoje a gente tem muito mais acesso a diferentes visões e posições de mundo, mas ainda é pouco e, acima de tudo, muito frágil. Quando o assunto é gênero, se fala muito sobre conquista de direitos e de espaços, mas é necessário pensar também na manutenção desses direitos e desses espaços, porque eles não são garantidos. Não é como se as nossas conquistas viessem com a segurança e a certeza de que amanhã elas ainda irão existir. Muito pelo contrário, né?

É quase como um ciclo de tendência. Em determinados momentos, existe uma demanda de “dar voz às mulheres” [que já é uma expressão problemática], ou de falar sobre a diversidade de corpos. Quando esse ciclo passa, o que fica? A gente viu isso com o body positive. Houve um momento de grande visibilidade e, depois, uma retomada de padrões estéticos muito restritivos, com representações que não são diversas.

As tendências vão e voltam. O que deveria permanecer é essa possibilidade de existência diversa, onde cada pessoa tem o direito de viver o próprio corpo e a própria imagem da forma que quiser.

Os objetos e as estéticas que circulam não são neutros, eles representam comportamentos e visões de mundo. Então, quando essas imagens mudam, é porque existe uma mudança social, e, quando elas voltam para padrões antigos, isso também diz muito sobre o momento que estamos vivendo.

Granatapfel [Viena, Áustria • 2025] Mural que conecta Viena à luta feminista latino-americana. A romã [granatapfel em alemão] simboliza multiplicação e lembra que semear exige tempo, paciência e confiança na colheita. Reprodução: Pri Barbosa


Quando você fala dessas imagens que circulam e dos ciclos de representação, isso também passa pelo mercado e pela forma como a arte se viabiliza hoje?

PB: Isso tudo acontece dentro da arte também, que está diretamente ligada ao mercado da publicidade. E essa é uma coisa que as pessoas evitam muito falar, porque parece quase condenável um artista querer ganhar dinheiro com sua arte.

Os artistas não vivem só de galerias, exposições e museus, muito pelo contrário. Para mim, por exemplo, a renda não costuma vir da participação em festivais de arte urbana, embora existam outras contrapartidas que me interessam. O dinheiro está no marketing e na publicidade.

Durante a pandemia, houve um momento de maior valorização do trabalho artístico, quando as marcas e as plataformas de venda estavam tendo que expandir rapidamente no online e precisavam criar diálogo com o público. De lá para cá muita coisa mudou. Hoje, muitas marcas preferem investir em comunicações mais rápidas, com influenciadores, do que em um trabalho artístico mais elaborado.

Isso torna as relações menos duradouras e impacta diretamente em como a gente consegue se inserir nesse mercado sem abrir mão da própria voz, da pesquisa e dos interesses poéticos. Para mim, isso sempre foi importante e, ao mesmo tempo, está cada vez mais desafiador manter.


Dentro desse cenário, como você constrói essas negociações com marcas, galerias e instituições sem abrir mão da sua linguagem e da sua pesquisa?

PB: Acho muito importante desromantizar as relações de trabalho na arte. Existe uma ideia de que o circuito da arte é uma coisa e o mercado publicitário é outra, mas as negociações com galerias, museus e marcas têm lógicas muito semelhantes.

Você está sempre negociando valor, direitos de uso da imagem, prazos, entregas, necessidades e expectativas. O que muda é a forma como isso é percebido.

E mesmo quando você está produzindo sem ter um briefing específico, essa pintura é o resultado de todo um processo criativo que envolve a sua relação com o mercado. A intenção de venda se torna inerente à criação quando a gente fala de subsistência e isso independe se a obra é criada para um cliente final, uma pessoa física, para um museu, para uma galeria. Sempre vai envolver uma troca comercial.

Ao longo do tempo, fui aprendendo a me posicionar melhor dentro dessas negociações, a entender o valor do meu trabalho e a deixar claro qual é a minha linguagem e quais são os meus limites. Porque, se isso não está claro, fica muito mais fácil que a sua essência se perca no meio do caminho.


No trabalho com marcas, nem sempre o direcionamento e a criação acontecem em contato direto com o cliente. Como você lida com esses intermediários nesses processos [agências, produtores, curadores] e como isso influencia o seu processo criativo?

PB: É desafiador, porque, quando existem muitos intermediários, a comunicação pode se distorcer. Nem sempre você está falando diretamente com quem toma a decisão final ou com quem vai receber aquele trabalho.

Percebo que existe também uma certa ignorância do mercado. Se você nunca trabalhou com um artista visual, por exemplo, não tem problema em não saber como funciona, o problema é chegar como se conhecesse aquilo, sem nenhuma disponibilidade para entender como é o processo de criação. As agências nem sempre estão preparadas para lidar com analógico, elas estão muito acostumadas com o digital e, na cabeça delas, se aperta um botão e foi modificado. Não existe pedir alteração em uma pintura ou em um mural, sabe?

Então acho que essa comunicação nos processos é sempre o grande problema de trabalho com marcas e nisso, inclui-se galerias, museus e festivais, porque todos são marcas na verdade.

Sempre-vivas [São Paulo, Brasil • 2025] Pri Barbosa em processo – levando referências do lar e da natureza morta para o espaço público. Reprodução: Pri Barbosa


O que precisa existir para que esse trabalho com marcas e projetos faça sentido para você?

PB: Fui aprendendo a escolher melhor os projetos e as pessoas com quem trabalho. Hoje entendo que uma parte importante das minhas atividades é saber negociar, comunicar a minha prática e proteger a minha pesquisa dentro desses processos.

Também penso no que essa marca me proporciona para além do valor monetário. Quando existe alinhamento, o processo flui. Quando não existe, vira um desgaste grande. Quando a gente se associa a determinadas marcas, também consegue alcançar outros públicos.

Ao abordar sobrNe posicionamento político em nosso trabalho, muita gente imagina que você vai falar só com quem concorda e isso não existe.

Para mim, esses projetos também são uma oportunidade de acessar públicos que estão em outros lugares e propor conversas a partir daí. Nem todo diálogo precisa partir do confronto.

Ao longo dos anos fui percebendo que uma estratégia mais propositiva, no sentido de levantar questões e abrir espaço para conversas e discordâncias, funciona muito bem. E isso pode acontecer inclusive dentro de um trabalho comercial.


Como o seu processo criativo se organiza na prática?

PB: Meu processo de criação é muito racional. Não fico desenhando para ver o que vai sair. Primeiro penso, leio, escrevo, pesquiso e faço anotações do que quero desenvolver no caderno ou no bloco de notas do celular.

Às vezes acontece alguma coisa, vejo uma situação, penso que “isso tem a ver com aquilo que eu estava refletindo outro dia” e anoto. Fotografo muito as pessoas à minha volta, os lugares, me fotografo muito também. Então não existe esse momento de sentar na frente da tela e pensar “o que vou pintar agora?”. A ideia já está construída.

A gente vê falar muito sobre ter essa frustração diante da tela em branco, né?! Mas, muitas vezes, é porque não é hora de fazer, é hora de absorver.

A criatividade vem dessa ebulição que a vida traz e às vezes, essa vida precisa ser perseguida, no sentido de ler, ver uma exposição, conversar com alguém, mas a gente acha que tudo isso é supérfluo, que bater um papo com um amigo sobre determinado tema é supérfluo, só que na verdade é aquilo que vai te nutrir para você sentar e criar.

No muralismo, por exemplo, chego no local sem nada e só depois de procurar pessoas e frequentar os lugares, reúno tudo e organizo esse material para planejar a imagem, porque ele é muito baseado na oralidade e em transformar em imagem as histórias que são passadas de geração em geração.

E tem uma questão de pertencimento. Preciso fazer parte daquele lugar, para me sentir no direito de representar algo ali. O mural é uma intervenção na vida das pessoas, no caminho delas, então elas precisam se enxergar naquilo, e eu também.

Isso vale para os murais, mas também para as pinturas em geral. Sempre me inspiro a partir de objetos da minha casa, pessoas próximas, coisas do meu cotidiano. Preciso me relacionar com o que pinto.


O muralismo tem uma história muito forte como linguagem de resistência e memória coletiva. Quando leva esse olhar latino-americano para outros contextos [como festivais e circuitos europeus] o que você sente que esse trabalho provoca nesses espaços?

PB: A Europa tem bastante influência do muralismo latino-americano e, muitas vezes, existe uma certa ignorância em relação a isso.

A história do muralismo na América Latina sempre esteve muito ligada à população, ao povo da rua. Desde o início do século XX, essas linguagens foram usadas como ferramentas políticas, para apresentar novas realidades, discutir desejos coletivos e ampliar a participação das pessoas na vida social.

Isso foi se desdobrando com outras influências, claro, mas essa base permanece. Grande parte dos artistas de rua latino-americanos trabalha a partir de uma relação crítica com a cidade, com a realidade e com as pessoas. São trabalhos profundamente políticos.

E eu acho que a Europa se beneficia dessa influência sem necessariamente reconhecer essa origem.

Hoje existem artistas europeus que usam a arte urbana para questionar o mundo e fazem trabalhos incríveis. Alguns têm se aproximado mais de discursos sobre origem e tradição, mas a forma como a tradição é entendida ali é diferente da nossa. Em muitos contextos europeus, a tradição é pensada de forma linear. Na América Latina, a gente fala que elas foram interrompidas, roubadas, usurpadas.

Claro que existem exceções. Eu pintei na Bósnia e Herzegovina, por exemplo, que é um país que passou por processos muito duros, com a dissolução da Iugoslávia, guerras, exploração. Ali existem aproximações muito maiores com a nossa realidade latino-americana do que com outros lugares da Europa marcados por mais privilégios. São caminhos e motivações diferentes.

Essas experiências expandem muito a forma como você se enxerga e como entende o espaço que ocupa em outras sociedades. Pensar a latinidade e a brasilidade passou a fazer parte do meu trabalho de forma ainda mais consciente depois dessas vivências.

Tenho muito orgulho dos artistas latinos e brasileiros. A gente produz trabalhos de altíssima qualidade partindo, muitas vezes, de contextos de escassez de material, de técnica, de oportunidade. E, ainda assim, entregamos muito.

Não é por acaso que o Brasil é reconhecido como um dos lugares mais fortes do mundo em arte urbana. Isso é mérito nosso.

Volta pro tanque Acrílica sobre tela – Priscila Barbosa [2024]. Reprodução: Priscila Barbosa


Todos os anos, no 8 de Março, você organiza uma publicação coletiva com textos e trabalhos de mulheres. Como surgiu esse projeto e como você constrói essa curadoria?

PB: Esse projeto é a menina dos meus olhos. Ele começou em 2021, no meio da pandemia. 

Em 2020 eu estava no Chile, nas manifestações de 8 de Março, e quando voltei para o Brasil entrou o lockdown. Eu sempre fui para a rua, me manifestar nessa data e me incomodou muito a ideia de deixar o dia passar como se fosse qualquer outro. Faltando poucos dias, pensei: preciso fazer alguma coisa.

Chamei pessoas próximas, convidei para contribuir com textos e imagens e organizei um material para download gratuito. A recepção foi muito bonita, o conteúdo começou a circular em escolas, grupos de mulheres, casas de acolhimento. Então decidi continuar todos os anos.

A curadoria acontece ao longo do ano. Vou acompanhando trabalhos, textos, relatos e guardando tudo. Às vezes percebo que duas pessoas, que nem se conhecem, estão falando de temas que conversam entre si e começo a construir essas conexões.

Eu não podo o conteúdo, mas convido aqueles que sei que têm uma linha de pensamento que pode construir algo interessante ali. O mais bonito é justamente essa diversidade de vozes: são visões diferentes, experiências variadas, às vezes até contraditórias, ocupando o mesmo espaço.

Páginas da publicação 8M2026: A minha casa que sou eu [2026]. Reprodução: @prii_barbosa


Quando você olha para a sua trajetória, que tipo de legado gostaria que o seu trabalho deixasse?

PB: Gostaria que o meu trabalho deixasse um registro de que é possível construir outras imagens de nós mesmos. Que as pessoas que veem esses trabalhos consigam se reconhecer, se ver representadas, se sentir parte de algo maior.

E que também fique essa ideia de que a arte pode ser um espaço de diálogo, de encontro e de construção coletiva, não só um lugar de contemplação.

Se o meu trabalho conseguir abrir caminhos para que outros também criem, também ocupem esses espaços e também contem as suas histórias, isso já é um legado muito importante.


ECOS SUBVERSIVOS

Ideias e aleatoriedades que não couberam na entrevista [mas você precisa descobrir]

Uma artista que você ama e acha que todo mundo deveria conhecer?

PB: Carmen Lomas Garza. Gosto muito do trabalho dela porque fala do ambiente da casa e da vida cotidiana. São cenas quase congeladas, em que dá para se reconhecer e até brincar de identificar quem você seria ali. Para nós, latinos, mesmo ela sendo uma artista dos Estados Unidos com origem mexicana, traz uma familiaridade muito grande.

Tamalada – Carmen Lomas Garza [1988]. Óleo sobre linho montado em madeira, 24 × 32 pol. Coleção privada.
Reprodução: Carmen Lomas Garza


O que você costuma ouvir quando está trabalhando ou no dia a dia?

PB: Não ouço música enquanto pinto, acredita?! Assisto a coisas leves. Sou muito de repetição, então vejo novelas, séries que já assisti, vejo muito Big Brother enquanto estou pintando [risos].

Tem processos que são muito emocionais para mim e não dá para ficar imersa nisso por horas. Então coloco outra coisa de fundo para dar uma dissociada, para não ficar sempre nesse lugar melancólico.

Mas, no dia a dia, escuto muito Jorge Aragão – acho que é o que mais ouço – e também sou uma grande fã de My Chemical Romance.


Um filme ou série que você acha que todo mundo precisa assistir.

PB: Interestelar. Fala de tempo, memória, saudade, relação entre gerações… temas que atravessam muito o meu trabalho.


Um lugar no mundo onde você se sente pertencente.

PB: Minha casa. Tem países em que me senti muito acolhida, como Chile e Colômbia, mas tenho uma relação muito forte com a ideia de casa em si e com as casas que já vivi.

A casa, para mim, é um ambiente vivo, que observa as pessoas que passam por ela e vai se transformando com elas. Quando estamos mal, a casa também se deteriora; quando estamos bem, a gente cuida, arruma, transforma aquele espaço.

Cresci no Aricanduva e, quando chovia muito, a gente perdia tudo nas enchentes. Fotos, móveis… tudo. Então a relação com a perda da casa é algo muito forte para mim, e isso faz com que eu crie vínculos muito intensos com os lugares onde vivo e também processos de despedida muito intensos.

A casa aparece muito no meu trabalho por isso. Ela pode ser prisão, mas também pode ser libertação. E existe uma diferença entre espaço privado e espaço doméstico: quando a casa é só o lugar onde você serve os outros, isso não é um espaço privado de fato.


Tem alguma coisa que você está meio obcecada ultimamente?

PB: Construção civil [risos]. Estou reformando a minha casa nova, então tenho pesquisado muito como fazer as coisas. Mas para além disso, sempre achei que o trabalho do muralista é muito parecido com o de um trabalhador da construção civil, tem zero glamour, perrengue, calor, esforço físico.

Tenho me dedicado cada vez mais a entender a estrutura das coisas, não só a camada final. O que existe por trás do mural? Existe tudo que mantém essa estrutura para que um mural seja feito e saber construir é algo que tem me interessado muito.


Tem algum livro que você indicaria agora?

PB: Estou lendo Mulheres, casas e cidades, da Zaida Muxí. É incrível, fala justamente dessa relação entre espaço doméstico, cidade e mulheres.


O que você está planejando ou desejando para os próximos tempos?

PB: Tenho desejado pintar mais telas. Pinto pouco em tela e percebo como meu trabalho muda tecnicamente quando volto para esse suporte.

Também quero expandir a pesquisa teórica e repensar a forma como comunico meu trabalho. Às vezes as pessoas veem só o resultado final, não veem o desenvolvimento, e eu odeio a ideia de colocar o processo em um reels de um minuto. Tenho vontade de registrar melhor essas sequências até como uma forma de documentar o meu próprio pensamento.

Hoje sinto que estou mais ambiciosa na vida pessoal do que profissional, no sentido de querer que o meu trabalho sustente os planos de vida que tenho. Acho que esse é o foco agora.