UM ADEUS À EMPATIA PROGRAMADA

Written by Éve Menegotto: uma designer que escreve! ✍️🤓 www.evemenegotto.com.br

Ilustração Digital Impacto Empatia, por Patrick Nunes / @estudioefluens

Ao invés de assumir valores que não são nossos porque parece certo, porque não assumir valores que ainda não são nossos porque desejamos que sejam?

Entender é diferente de vivenciar (que, aliás, tem uma bela definição no dicionário — viver uma dada situação, deixando-se afetar profundamente por ela). Neste caso a empatia, como a idealizamos, está longe de funcionar como ferramenta.

Quem se interessa pelo tema, provavelmente acompanhou a transição de discurso que vai de “precisamos praticar empatia para construir marcas, produtos e relações melhores” para outro extremo que diz que “a empatia é uma completa ilusão, afinal, é impossível alcançar os sentidos do outro, em sua totalidade. O correto é pensar em alteridade!”.

E, talvez, no meio desses pontos de vista tão opostos, muitos tenham se sentido perdidos, pensando se deveriam deixar a empatia na lista de valores ou substituir por algo mais impactante para o cenário atual. Absurdo, mas real. Esta dúvida enorme e pesada é só uma das consequências de ter valores de mentirinha.

Composição “Caminhos percorridos, sem bússola nem mapa”, por Celina Tanaka / @encobertos

Normalmente jogam-se palavras na lista para que se obtenha uma espécie de programação do discurso. Bem assim. Fomos programados para falar sobre empatia, programados para nos declarar empatas. Usamos frases de efeito prontas, algo como “somos uma marca que se preocupa genuinamente com o público” ou “empatia é o nosso valor mais forte”, ou ainda “só a empatia faz uma marca humana” (essa é boa, não? Juro, eu já ouvi) Sabemos o que dizer, quais ações parecem ser melhores aceitas, repetimos com frequência que devemos olhar para o outro, ouvir com atenção, se pôr em seu lugar.

Porém, se nos apresentam outra versão, contestando o funcionamento, a eficácia ou a veracidade do que temos hoje em nossa lista, o abalo é quase certo. Porque é difícil defender algo que não é nosso, que faz parte do Canvas, mas não do ser. Sabemos tudo sobre empatia, menos como ela age em nós. Porque não sentimos isso. E não porque não podemos sentir, mas sim porque simplesmente não nos empenhamos verdadeiramente para sentir. Em grande parte das vezes a empatia apenas fez parte do que nós parecemos, enquanto marcas, para o nosso público. O nosso “ser empata” não passa de um compacto parágrafo que absorvemos e repetimos por aí. Uma linda programação de posicionamento.

Composição “Tudo muito raso, tudo muito raro”, por Celina Tanaka / @encoberos

Somos todos empáticos até alguém convicto aparecer e dizer que empatia não existe, ou até algum outro valor fazer mais sentido para o cenário emergente. Essa programação triste não diz respeito apenas à empatia, ela permeia outros valores e vem em ondas: sustentabilidade, inclusão, transparência, resiliência, disrupção! Uma relação adorável de valores não postos em prática.

Não me odeie. Quando digo “nós”, não quero dizer todos, mas boa parte do todo. Felizmente, podemos ver uma mudança considerável no que diz respeito à marcas e valores e, talvez, ainda tenhamos chance de ser mais significativos em ações reais, não apenas marcantes pelo falatório.

À julgar pelo movimento ativista internacional Vidas Negras Importam, onde conseguimos acompanhar muitas marcas assumindo um papel de aprendizes, podemos alimentar esperanças de que o mundo das marcas está, finalmente, se humanizando. Ver e ouvir marcas assumindo que ainda falham, mas que estão se esforçando para alcançar melhores resultados sociais, é infinitamente mais reconfortante que perceber um atrito entre falar e fazer.

Ilustração Manual SerEmpatia, por Fábio Rangel / @oproximopasso

Nos acostumamos a “escolher” os valores pelo que somos hoje e, desta forma e por muito tempo, nos esforçamos para parecer ser o que não somos. Mas penso que valores podem ser adotados, você não acha? Declarar ser entusiastas, simpatizantes ou “tentantes” de algo que ainda não somos, mas que desejamos ser de verdade.

Existe um movimento, talvez não da proporção que o mundo merece, mas ainda assim um movimento esperançoso, de escolher melhor os valores, o que defendemos, as causas pelas quais queremos lutar. Não há nada de mal em dizer que estamos trabalhando a empatia, tentando praticar da melhor forma possível, alcançando pequenos frutos, ainda que com muito suor. Definir valores pelo que acreditamos e pelo que queremos para o futuro, valores que nos impulsionam a alcançar um novo lugar e ser melhores do que somos hoje.

Ilustração Empatia, por Luisa Mollo / www.instagram.com/lumonolab

E aí pouco importa se a empatia é alcançável ou não, se ela funciona como a idealizamos ou não… importará o que você está fazendo no caminho para alcançar o “ser empático” de verdade. Chegou a hora de dar adeus ao discurso programado de empatia. Talvez possamos colocar a empatia como um valor que define objetivos de marca a serem alcançados.

Lau Patrón nos fala que a empatia real é escolher se importar e acredito que essa afirmação resume bem a minha visão otimista do futuro das marcas. Porque os valores influenciam as escolhas que fazemos, as coisas que criamos e nos ligam profundamente ao nosso propósito. Ao fazer escolhas e tomar decisões baseadas em alinhar suas ações com o que você valoriza, você começará a atrair as pessoas que se identificam com esses mesmos valores e, aí sim, começará a criar conexões reais. Conexões que podem realmente mudar o nosso futuro!