É impressão minha ou todo mundo quer ser influencer?

Written by: Bruna Lima

(Foto de Nick Fancher – Unsplash)

Fala, pessoal! Tudo bem por aí? Você já se pegou se perguntando como seria a sua vida se você fosse um influenciador digital? Esses dias, navegando pela web, me deparei com um dado um tanto quanto impressionante: segundo um estudo realizado pela INFLR, adtech especializada em marketing de influência, 75% dos jovens brasileiros querem ser influenciadores digitais. Outra pesquisa realizada pela Fundação Lego (com crianças entre 8 a 12 anos, nos Estados Unidos) constatou que 30% delas gostariam de ser “vlogger”, influenciador que se comunica por vídeo. (FOLHA DE SÃO PAULO, 2023). Esses dados revelam uma transformação cultural significativa e levantam várias questões para debate.

Antigamente, a comunicação de massa era dominada pelos grandes veículos de mídia, como jornais, revistas, rádio e televisão. Esses (poucos) meios de comunicação controlavam todo o fluxo de informações, notícias e entretenimento que eram divulgados para a sociedade em geral. E, consequentemente, eles também determinavam quem teria acesso à fama e quais narrativas seriam amplificadas. 

Esses veículos atuavam de maneira linear e unilateral, emitindo mensagens e presumindo que o público as receberia passivamente. Até porque não existiam meios eficientes para interação ou feedback preciso. As opiniões do público eram raramente ouvidas, perpetuando uma dinâmica em que apenas um pequeno grupo de indivíduos privilegiados tinha acesso aos meios de comunicação, influenciando a opinião pública e moldando a cultura segundo as suas perspectivas.

Com o advento da internet e boom das redes sociais, as coisas mudaram. E muito. Todas as pessoas receberam acesso a um canal de comunicação de massa. As redes sociais deram voz e palco aos que nunca tiveram as suas histórias contadas. Segundo Thiago Cavalcante, sócio diretor da INFLR, “A internet democratizou a ‘fama’, dando oportunidade de não apenas uma celebridade de novela ser relevante, mas sim, qualquer pessoa que saiba utilizar as ferramentas ao seu favor”. (MEIO E MENSAGEM, 2022) Um exemplo disso é o influenciador Whindersson Nunes, um humorista do interior do Piauí que começou a sua carreira publicando vídeos de comédia no YouTube. Sem o apoio de nenhum veículo de mídia, ele conquistou mais de 44 milhões de inscritos com suas histórias do cotidiano e humor autêntico.

(Na imagem: Whindersson Nunes) 

O fenômeno dos influenciadores digitais deixa claro como a dinâmica de fama e influência mudou. A internet e as redes sociais quebraram os oligopólios de comunicação, permitindo que qualquer pessoa com acesso à internet possa criar um veículo de mídia. Além disso, à medida que a tecnologia evolui, testemunhamos mudanças significativas na maneira como consumimos e produzimos conteúdo, sendo que as novas gerações já têm o hábito de compartilhar informações da sua vida pessoal mesmo sem o objetivo de ter um ganho financeiro com isso, simplesmente porque gostam. 

A busca por ascensão social

Viagens, itens de marca, restaurantes caros e acesso privilegiado: muitas vezes, os influenciadores digitais ostentam um estilo de vida luxuoso e isso serve de exemplo para muitos jovens que enxergam na carreira uma oportunidade para melhorar de vida e alcançar a independência financeira.

As redes sociais permitiram que pessoas de todas as classes sociais tivessem acesso à realidade das camadas mais ricas da população, criando um desejo generalizado de alcançar esse estilo de vida. A possibilidade de ganhos elevados, sem a necessidade de seguir os caminhos tradicionais de estudo e progressão de carreira, é extremamente atraente. Segundo estudo publicado pela Morning Consult Pro, dinheiro seria a principal motivação para que 78% dos Gen. Zers queiram ser influencers digitais nos Estados Unidos.

No Brasil, um país conhecido por suas profundas desigualdades sociais, a ascensão social rápida através da influência digital é vista como uma esperança para muitos. De acordo com um estudo sobre mobilidade social publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma família brasileira que se encontra entre os 10% mais pobres pode levar até nove gerações para alcançar a renda média do país, estimada em R$ 2.979. Esse dado ilustra a dificuldade de mobilidade social nas estruturas tradicionais.

Nesse contexto, se tornar um influenciador é frequentemente visto como uma forma de alcançar a ascensão social de forma rápida. Diferente dos caminhos tradicionais, que podem envolver anos de educação formal e escalada gradual na carreira, a influência digital pode proporcionar um salto quase instantâneo em termos de condição e renda. 

Plataformas como YouTube, Instagram e TikTok oferecem a possibilidade de monetização rápida por meio de visualizações, parcerias com marcas, marketing de afiliados e outras formas de renda. Jovens que conseguem atrair inúmeros seguidores e engajar seu público podem começar a gerar receita significativa em um curto período. Além disso, a possibilidade de trabalhar em horários flexíveis e a possibilidade de criar conteúdo em torno de seus interesses pessoais tornam a carreira de influenciador ainda mais atraente.

A necessidade de ser ouvido

A carreira de influenciador digital não é motivada apenas pela busca por dinheiro. Há um aspecto profundamente humano nesse desejo: a necessidade de ser ouvido, acolhido e se sentir parte de um grupo. Segundo o estudo realizado pela Morning Consult Pro, 74% das pessoas que desejam ser influenciadores digitais querem essa carreira pela oportunidade de compartilhar suas ideias com mais pessoas, validando suas opiniões e perspectivas e podendo influenciar e inspirar outras pessoas. Diferente das mídias tradicionais, onde a comunicação é geralmente unidirecional, as redes sociais permitem uma interação contínua entre influenciadores e seus seguidores. Isso oferece a oportunidade de construir uma comunidade em torno de interesses e valores compartilhados.

O estudo também revela que 70% dos entrevistados acreditam que ser um influencer lhes daria a oportunidade de fazer a diferença no mundo, uma vez que muitos deles usam as redes sociais como uma plataforma para defender causas importantes, compartilhar conhecimento e promover mudanças sociais. Um exemplo marcante é Felipe Neto, um dos maiores influenciadores digitais do Brasil, com 46 milhões de inscritos em seu canal do YouTube. Conhecido inicialmente por seus vídeos de comédia e crítica cultural, ele frequentemente aborda questões políticas e sociais. Frequentemente, Felipe usa seus canais de comunicação para se posicionar politicamente, combater fake news e esclarecer informações importantes para seus seguidores. 

(Na imagem: Print screen de matéria na Folha de São Paulo: Vídeos de Felipe Neto que desmentem fake news ultrapassam 100 milhões de visualizações

Sua atuação no combate contra fake news e suas críticas ao governo lhe renderam tanto apoio quanto inimigos. Felipe Neto enfrentou diversos processos judiciais e foi alvo de ataques e ameaças. Apesar das dificuldades, ele ainda usa sua influência para proteger os direitos dos criadores de conteúdo, chegando a ser convidado pelo presidente da Câmara dos Deputados para participar de discussões sobre políticas nacionais de combate às fake news. (GLOBO PLAY, 2024) Esse convite não só valida a importância de sua voz no cenário político e social, mas também exemplifica como influenciadores podem desempenhar papéis significativos em debates públicos cruciais.

Trabalho fácil?

Como os influenciadores estão sempre compartilhando imagens do seu dia-a-dia luxuoso, a percepção de que ser influencer seria um “trabalho fácil” é bastante difundida. Segundo o estudo publicado pela Morning Consult Pro, 52% dos entrevistados acreditam ser fácil criar uma carreira como influencer. Mas a verdade é que as pessoas veem apenas o produto final: fotos bonitas, vídeos bem editados e momentos de glamour. O processo por trás dessas postagens, incluindo planejamento, produção, edição e estratégias de engajamento, muitas vezes passa despercebido.

Além disso, a natureza informal do conteúdo dos influenciadores pode levar a uma percepção errada. Diferente das mídias tradicionais, que envolvem grandes equipes de produção e recursos profissionais, os influenciadores geralmente criam conteúdos sobre o cotidiano e usam equipamentos acessíveis à maioria das pessoas. Isso faz com que o trabalho pareça mais uma extensão natural de suas vidas do que um esforço profissional estruturado. Mas não se engane, as oportunidades de ganho são reais, sendo que o setor deve movimentar mais de US$ 21 bilhões (R$ 105 bilhões) até o final deste ano. (ISTO É, 2004).

Um exemplo que ilustra bem essa realidade é o caso de Bianca Andrade, conhecida como Boca Rosa. Quando Bianca publicou a sua estratégia de stories, ficou claro o nível de planejamento e trabalho que ela dedica à criação de seu conteúdo. Suas postagens não são apenas espontâneas; elas seguem um roteiro cuidadosamente planejado. Em uma publicação a respeito das reações ao seu planejamento, ela disse: “isso não é ser artificial, é ser intencional”. (UOL, 2022)

(Na imagem: Stories de Bianca Andrade com o planejamento semanal dos seus Stories.) 

Bianca revelou que seus dias são preenchidos com planejamento de conteúdo, reuniões com sua equipe, sessões de fotos, gravações de vídeos e interações com seus seguidores. Essa rotina intensa desmente a ideia de que ser influenciador é um trabalho fácil e sem esforço. A criação de conteúdo envolve não apenas a criatividade, mas também uma compreensão profunda das ferramentas de marketing digital e das estratégias de branding.

A economia da atenção

Segundo relatório da GWI (Q3-2022), os brasileiros de 16 a 64 anos passam 9 horas e 32 minutos utilizando diariamente a internet, contando dispositivos móveis e desktop. Com cada vez mais conteúdo disponível online, marcas e influenciadores competem pela atenção dos usuários. A atenção tornou-se um recurso valioso e disputado. Os influenciadores desempenham um papel fundamental nesse cenário, utilizando diversas estratégias para atrair e engajar seguidores. 

No entanto, à medida que o mercado se torna mais competitivo, muitos recorrem a ações cada vez mais absurdas para se destacar. Um exemplo extremo desse comportamento é o caso do YouTuber Trevor Jacob, que em 2021 provocou a queda do seu próprio avião para gravar o incidente e postar no YouTube. No episódio, Jacob teria alegado falha no motor antes de saltar de paraquedas, deixando a aeronave cair e filmando todo o evento com câmeras posicionadas em diversos ângulos. Após investigação, a Administração Federal de Aviação (FAA) dos Estados Unidos concluiu que a queda foi intencional e revogou sua licença de piloto. O vídeo alcançou 1,8 milhões de visualizações, levantando questões sobre os limites que algumas pessoas estão dispostas a ultrapassar para chamar atenção. (NBC NEWS, 2022)

(Na imagem: Tevor Jacob YouTube screenshot) 

Outro exemplo é a família Kardashian. Kris Jenner e suas filhas conseguiram construir um verdadeiro império utilizando os escândalos da vida pessoal e familiar para criar conteúdos: desde reality shows a postagens detalhadas sobre o dia-a-dia. Seja por meio de polêmicas, fotos provocativas ou colaborações, elas sempre têm uma estratégia para manter seus seguidores engajados.

Falem bem ou falem mal, mas falem de mim

Nesse cenário, influenciadores e aspirantes a celebridades estão dispostos a fazer de tudo para captar a atenção do público, mesmo que isso signifique manchar sua própria reputação. Esse comportamento é impulsionado pela necessidade constante de se destacar em um ambiente saturado de conteúdo e pela ilusão de que qualquer forma de visibilidade é benéfica.

Apesar da aparente obsessão por visibilidade a qualquer custo, é importante reconhecer que a necessidade humana de ser aceito e validado ainda prevalece. A busca incessante por fama, mesmo que negativa, pode ser vista como uma tentativa desesperada de satisfazer essa necessidade. No entanto, as consequências de uma má reputação podem ser devastadoras. Além da perda de oportunidades profissionais, influenciadores que recorrem a táticas extremas podem enfrentar isolamento social, críticas severas e problemas de saúde mental.

Marcas procuram por influenciadores que compartilham dos seus valores e que possam representar seus produtos de maneira autêntica e confiável. Quando um influenciador opta por ações controversas ou antiéticas para ganhar visibilidade, ele se torna um risco para as empresas, que temem associar sua imagem a comportamentos negativos. Essa associação pode resultar em crises de imagem para ambas as partes, dificultando futuras colaborações e comprometendo o potencial de ganhos.

À medida que os influenciadores adotam estratégias mais extremas, a exposição contínua a conteúdos chocantes pode levar à dessensibilização do público, forçando os criadores a buscar métodos ainda mais drásticos para se manterem relevantes. Esse ciclo de estímulo crescente não é sustentável a longo prazo e pode levar a um desgaste tanto dos influenciadores quanto do público. Além disso, a busca incessante por atenção a qualquer custo pode resultar em um conteúdo cada vez mais superficial e sensacionalista. Nesse sentido, é fundamental que as marcas e influenciadores desenvolvam estratégias mais autênticas e sustentáveis para manter a relevância e o engajamento a longo prazo.

Em última análise, a reputação e a credibilidade são ativos intangíveis que influenciam significativamente o sucesso a longo prazo de um influenciador. Preservar esses valores requer um equilíbrio entre a busca por visibilidade e a manutenção de uma imagem autêntica e ética. Somente assim será possível construir uma carreira sólida e duradoura no competitivo mundo digital.

Fãs e haters

A exposição pública é uma faca de dois gumes. Por um lado, a visibilidade traz inúmeras vantagens, como o aumento do reconhecimento, oportunidades de parcerias com marcas e a capacidade de influenciar uma grande audiência. Por outro lado, essa exposição também acarreta desvantagens significativas, como a perda de privacidade, a pressão constante para manter uma imagem idealizada e o enfrentamento de críticas severas.

Fãs e haters são cruciais para o engajamento dos influenciadores. Fãs dedicados interagem e promovem o conteúdo, aumentando a visibilidade dos influenciadores. Surpreendentemente, haters também são fundamentais nessa dinâmica. O algoritmo das redes sociais tende a recompensar postagens que geram muita interação, sejam elas positivas ou negativas. Dessa forma, a presença de haters pode, paradoxalmente, ajudar a aumentar o alcance e a influência do criador de conteúdo. Apesar disso, lidar com as críticas e ataques pode ser muito difícil, podendo trazer consequências diretas para a saúde mental. 

A realidade sobre a monetização

A monetização é um dos aspectos mais importantes e, ao mesmo tempo, mal compreendidos na carreira de influenciador digital. Muitas pessoas acreditam que um número grande de seguidores automaticamente se traduz em grandes quantias. No entanto, não é bem assim. A realidade é bem mais complexa do que isso. Enquanto algumas plataformas pagam, sim, por visualização, esses valores normalmente são baixos, mas existem várias outras maneiras pelas quais os influenciadores digitais podem gerar renda: 

  • Parcerias com Marcas: Influenciadores colaboram com marcas para promover produtos e serviços. Essas parcerias podem variar de publicações patrocinadas nas redes sociais até campanhas de marketing mais integradas. As marcas pagam aos influenciadores para que eles promovam seus produtos ou serviços para seus seguidores. A credibilidade e a confiança que os influenciadores têm com seus seguidores tornam essas parcerias valiosas. No entanto, a escolha das marcas deve ser cuidadosa para manter a autenticidade e a confiança do público.
  • Marketing de Afiliados: Os influenciadores podem ganhar comissões através do marketing de afiliados. Eles promovem produtos ou serviços e recebem uma porcentagem das vendas geradas através dos links afiliados compartilhados com seus seguidores. Essa estratégia pode ser bastante lucrativa, especialmente para influenciadores com uma audiência altamente engajada.
  • Venda de Produtos e/ou Serviços: Muitos influenciadores criam e vendem seus próprios produtos ou oferecem serviços. Isso pode incluir uma variedade de itens, como roupas, cosméticos, cursos, livros, consultorias, coaching ou qualquer outro produto, ou serviço que ressoe com seu público. Lançar uma linha de produtos ou oferecer serviços permite que os influenciadores capitalizem diretamente sobre sua marca pessoal.
  • Conteúdo Exclusivo: Plataformas como Patreon e OnlyFans permitem que os influenciadores ofereçam conteúdo exclusivo para assinantes. Essa abordagem cria uma fonte de renda recorrente, com os seguidores pagando uma taxa mensal para acessar conteúdo premium. Essa estratégia é eficaz para influenciadores que têm uma base de fãs dedicada e disposta a pagar por um acesso exclusivo.
  • Eventos e Aparições Públicas: Influenciadores populares são frequentemente convidados para eventos, palestras e convenções, onde podem ser pagos por sua presença ou por falar em painéis e workshops. Essas oportunidades não só geram renda direta, mas também aumentam a visibilidade e a credibilidade do influenciador.
  • Comunidades: Criar e gerenciar comunidades online, como grupos exclusivos no Facebook ou outras plataformas, permite que os influenciadores ofereçam um espaço mais próximo e interativo para seus seguidores mais engajados. Essas comunidades podem ser monetizadas através de assinaturas ou venda de acesso exclusivo.
  • Licenciamento de Imagem: Influenciadores podem licenciar seu conteúdo para outras empresas, permitindo que terceiros usem suas imagens, vídeos ou outras criações em campanhas publicitárias, ou outros projetos. Isso pode gerar uma fonte de renda passiva significativa.
  • Assinaturas e Memberships: Plataformas como YouTube e Instagram oferecem opções de assinatura, onde os seguidores pagam uma taxa mensal para obter acesso a benefícios exclusivos, como vídeos adicionais, conteúdos antecipados ou outros privilégios. Essa abordagem garante uma receita contínua e ajuda a manter o engajamento dos seguidores.
  • Crowdfunding: Influenciadores podem usar plataformas de crowdfunding para financiar projetos específicos através de doações de seus seguidores. Isso pode incluir a criação de novos produtos, conteúdos especiais ou eventos. O crowdfunding é uma maneira eficaz de medir o interesse do público em novos projetos antes de lançá-los.
  • Adsense (em Site ou Blog): Muitos influenciadores têm blogs ou sites onde podem gerar renda através de anúncios exibidos no conteúdo. O programa Google AdSense, por exemplo, paga aos criadores com base no número de visualizações ou cliques nos anúncios exibidos em seus sites, ou blogs.
  • Doações: Em plataformas como YouTube e Twitch, os seguidores podem fazer doações durante as transmissões ao vivo. Essas doações permitem que os seguidores destaquem suas mensagens durante a transmissão e são uma fonte adicional de renda para o criador.

As opções de monetização são várias, e cada estratégia demanda um mix de competências diferentes. Embora ajude, o sucesso financeiro de um influenciador digital não é determinado pela sua quantidade de seguidores, mas por uma estratégia bem definida, posicionamento claro e equilíbrio entre comercialização e autenticidade. 

Vale tudo por dinheiro?

A busca desenfreada por atenção e dinheiro levanta questionamentos importantes sobre ética e autenticidade. Embora existam inúmeras maneiras legítimas de “ganhar dinheiro online sem sair de casa”, algumas práticas enganosas têm se tornado cada vez mais comuns. Um exemplo disso foi o caso de Brittany Dawn, uma influenciadora americana acusada de propaganda enganosa.

Brittany vendia programas de exercício físico e nutrição personalizados que, segundo seus clientes, eram genéricos e não atendiam às promessas feitas nos anúncios. Quando seus clientes entravam em contato para reclamar de não estarem tendo os resultados esperados, eles esperam dias ou até semanas para obter uma resposta e, quando recebem, é sempre algo genérico ou sem nexo e que não respondia às suas perguntas, como, por exemplo, “Ah, menina, que orgulho! Você está indo tão bem.” Em resposta a um e-mail que a cliente reclamava de estar ganhando peso. Muitos deles ainda nem foram respondidos e muitos deles tiveram seus posts excluídos e foram simplesmente bloqueados. (YouTube. Wondery Brasil.

Em 2018 as vítimas de Brittany criaram um grupo que reuniu 4 mil pessoas, que se organizaram para reunir 15 mil assinaturas para uma petição chamada “Abaixo a fraude Brittany Dawn Fitness” e milhares de avaliações negativas com relatos poderosos no Yelp (o site é como se fosse o “Reclame Aqui” dos EUA). ]

(Na imagem: print screen da tela do vídeo https://www.youtube.com/watch?v=QX4Pbxn7e_E

Ela se posicionou, se colocando como vítima e chamando as reclamações e questionamentos de bullying. Em fevereiro de 2022, ela foi processada pelo estado do Texas e teve que pagar US$ 400.000 entre multas e ressarcimento a clientes, mas ela nunca admitiu os erros. Hoje, ela ainda conta com uma base de 672K seguidores no Instagram e 1.4M no Tik Tok e continua trabalhando como influenciadora digital, mas nada relacionado à saúde e nutrição.

Esse caso destaca a necessidade da ética, honestidade e transparência do influenciador com a audiência. Especialmente quando se trata de produtos que afetam a saúde e o bem-estar dos consumidores. 

Outro fenômeno problemático é a venda de “cursos de vender cursos”. Muitos influenciadores lucram ensinando outras pessoas a venderem cursos online, criando uma espécie de pirâmide. Essa prática é vista como insustentável e questionável, levantando sérias dúvidas sobre a ética e a viabilidade a longo prazo desse tipo de negócio. Esses cursos geralmente oferecem promessas de riqueza rápida sem fornecer uma base sólida de conhecimento ou habilidades práticas, o que pode levar a frustrações e desilusões entre os participantes.

O papel das marcas

Com as mudanças de hábito relacionadas ao consumo de conteúdo online, vemos uma tendência pela busca de conteúdos mais autênticos e humanos, abrindo um leque de oportunidades para influenciadores, microinfluenciadores e pequenos creators. Rodrigo Azevedo, do Portal Comunique-se, afirma: “Caiu a ficha para as marcas de que os influenciadores são como uma mídia como qualquer outra mídia, que ele sozinho tem mais audiência do que muita revista, muito jornal e até algumas televisões. O custo de se contratar esse influenciador comparado a contratar uma mídia tradicional é muito menor e o retorno é maior. […] Eles são queridos pelos seus seguidores, então não é apenas uma propaganda tradicional, aquilo que ele fala causa um efeito maior em seus seguidores.” (ISTO É, 2024). 

A interação direta com os seguidores, através de comentários, likes e mensagens diretas, permite que os influenciadores mantenham um diálogo contínuo com sua audiência. Isso gera um nível de engajamento e lealdade que é altamente valioso para as marcas, ao aumentar a probabilidade de conversão e fidelização dos consumidores. Quando um influenciador promove um produto ou serviço, seus seguidores tendem a perceber essa recomendação como genuína, criando uma confiança que as marcas dificilmente alcançam sozinhas. Microinfluenciadores, em particular, são extremamente eficazes nesse aspecto. Com um número menor de seguidores, eles tendem a ter taxas de engajamento mais altas e uma relação mais próxima com seu público. Isso faz com que suas recomendações sejam ainda mais confiáveis e impactantes. Além disso, influenciadores operam nichos, isso permite que as marcas escolham influenciadores cujo público-alvo se alinhe diretamente com seus produtos ou serviços. 

Apesar das diversas vantagens, a colaboração com influenciadores também apresenta alguns desafios. Na seleção, é crucial que seja feita uma pesquisa minuciosa sobre o histórico do influenciador, sua interação com o público e a qualidade do conteúdo que ele produz. As marcas devem garantir que o influenciador tenha uma reputação sólida e não esteja envolvido em controvérsias que prejudiquem a parceria. Se um influenciador promove valores que não estão em sintonia com os da marca, isso pode resultar em dissonância e prejudicar a imagem tanto da marca quanto do influenciador. 

Escolhas inadequadas de influenciadores podem levar a sérias crises de imagem para as marcas. Um exemplo é o caso do influenciador brasileiro Júlio Cocielo. Em 2018, Cocielo fez um comentário racista sobre o jogador francês Kylian Mbappé no Twitter. A repercussão negativa foi imediata, e várias marcas que tinham parcerias com Cocielo, incluindo a Coca-Cola, rapidamente cancelaram seus contratos. (G1, 2018) A crise de imagem foi significativa tanto para Cocielo quanto para as marcas associadas a ele, destacando a importância de uma seleção cuidadosa de influenciadores que compartilhem os valores da marca e mantenham uma postura responsável e respeitosa. 

Conclusão

As redes sociais e os influenciadores digitais transformaram completamente a maneira como nos comunicamos e consumimos conteúdo, se tornando elementos fundamentais na estratégia de marcas de diversos segmentos. A alta demanda das marcas por conteúdo, somada à baixa barreira de entrada e à possibilidade de ascensão social rápida, torna a carreira de influencer atraente aos mais jovens, principalmente em um contexto de desigualdades sociais profundas. 

Entretanto, precisamos reconhecer que, apesar da aparente facilidade e glamour, a profissão de influencer, assim como qualquer outra, exige muito trabalho, planejamento e dedicação. Além disso, a necessidade humana de ser ouvida e a busca por validação social desempenham papéis fundamentais na motivação de muitos influenciadores. Porém, a crescente competitividade para chamar a atenção do público pode resultar na produção de conteúdo cada vez mais superficial e sensacionalista.

Nesse contexto, cabe às marcas estabelecer critérios para a seleção dos influenciadores visando reduzir a dissonância de comunicação e os riscos de crise de imagem. Isso requer uma abordagem estratégica e bem planejada. Entender o público, escolher influenciadores alinhados com os valores da marca, promover a autenticidade, adaptar-se às novas tendências e focar na qualidade do conteúdo são passos essenciais para uma parceria de sucesso. 

No entanto, devemos refletir sobre algumas questões importantes: até que ponto a busca incessante por atenção está moldando a identidade dos jovens? Como podemos assegurar que a produção de conteúdo se mantenha ética e responsável em meio a tanta competitividade? E, por fim, será que estamos prontos para lidar com as consequências de uma sociedade onde a visibilidade se tornou sinônimo de valor e sucesso? Conta para a gente o que você pensa nos comentários! 

REFERÊNCIAS:

CATRACA LIVRE. 75% dos jovens brasileiros querem ser influenciadores digitais. Acesso em: 22 jun. 2024.

DATAREPORTAL. Digital 2023 Global Overview Report. Acesso em: 22 jun. 2024.

EL PAÍS. Os influenciadores são uma nova economia. Acesso em: 22 jun. 2024.

G1. Marcas anunciam retirada de campanhas com Julio Cocielo após comentário sobre Mbappé. Acesso em: 22 jun. 2024.

GLOBOPLAY. O mercado dos influenciadores digitais. Acesso em: 22 jun. 2024.

ISTOÉ. Influenciadores brasileiros devem movimentar R$ 10,5 bilhões este ano. Acesso em: 22 jun. 2024.

LEMOS, Ronaldo. Influenciador virou profissão das mais desejadas. Folha de S.Paulo, 09 maio 2023. Acesso em: 26 jun. 2024.

MEIO E MENSAGEM. Por que tantos jovens querem se tornar influenciadores. Acesso em: 22 jun. 2024.

MORNING CONSULT. Gen Z interest in influencer marketing. Acesso em: 22 jun. 2024.

RD STATION. Economia da atenção. Acesso em: 22 jun. 2024.

SQUARESPACE. Research Report. Acesso em: 22 jun. 2024.

UOL. Plano vazado de Boca Rosa mostra que influenciador digital não é bagunça. Acesso em: 22 jun. 2024.

WASHINGTON POST. Pepsi tried cashing in on Black Lives Matter with a Kendall Jenner ad. Acesso em: 22 jun. 2024.

YOUTUBE. Como funciona a vida de um influenciador digital? Acesso em: 22 jun. 2024.

YOUTUBE. Whindersson Nunes. Acesso em: 22 jun. 2024.

YOUTUBE. Wondery Brasil. A farsante fitness ⎮ Má Influência. Acesso em: 25 jun. 2024.